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sábado, 3 de dezembro de 2011
HISTÓRIA DO SISTEMA DE DEFESA DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO
ANAIS DO II ELAA DO CBA NOVEMBRO 2011
HISTÓRIA DO SISTEMA DE DEFESA DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO
Autor:
Ibá dos Santos Silva (1)
( 1) ibadossantosilva@globo.com
Resumo – O objetivo foi demarcar as ruínas e trilhas existentes desde o Brasil Colônia, passando pela época da Segunda Guerra Mundial, na Zona Sul do Rio, de Copacabana até o morro da Babilônia, entre Urca e Leme. Para tal foram constituídas duas equipes multidisciplinares, uma de consulta, com historiadores e outra de demarcação com funcionários do Estado, do Município e pessoal do Conselho Gestor da APA local. A idéia é constituir outra equipe com arqueólogos e geólogos para analisar e demarcar a área, visando tombá-la e mapeá-la, e preservar as demais ruínas e trilhas, concentrando tudo em um centro de referência e dados.
Palavras chave: Babilônia, história, Rio de Janeiro, ruínas, trilhas,
Abstract – This paper has the purpose of demarcate the ruins and tracks existent from the Colony and World War II times in the south area of Rio de Janeiro, from Copacabana to Babilonia’s mountain, between Urca and Leme neightbourhood. For that, it was called two multidisciplinary teams, one with historians, for consulting, and other one with employees from the State, from the county and from the local council, for marking the area. The idea is to take another team with arqueologists and geologists to analyze and mark the area, seeking to make and inventory of the lands, to map and preserve all the others ruins and tracks, keeping all together in a data base.
A História no Brasil Colônia, a Fundação da Cidade e o Sistema da Defesa - Por volta de 1.700 os portugueses, como é do conhecimento de todos, já haviam fundado a Cidade do Rio de Janeiro junto a entrada da Baía de Guanabara, em ponto muito estratégico, posto que para que fosse atacada por mar o navio teriam esses que passar pelo estreito entre os Morros do Pão de Açúcar e o de onde fica a atual Fortaleza de Santa Cruz, hoje no município de Niterói.
Além disso, o navio teria que virar de lado, pois os canhões ficavam nas laterais das embarcações, para assim bombardear a cidade. Ou seja, seria difícil o empreendimento.
As Invasões - No entanto, haveria de considerar a questão geográfica. Ou seja, os morros que dificultavam o acesso a cidade, e as depressões e partes planas dos vales que poderiam virar uma armadilha para emboscadas. Por esses vales poderia haver as invasões por terra.
Essas invasões poderiam acontecer, e aconteceram de fato, seja por piratas ou corsários, ou por tropas estrangeiras. As mais temidas na época eram as inglesas, as francesas e as holandesas. As espanholas pouco se aventuravam por aqui.
Não que os portugueses não supusessem que não poderiam ser atacados pelos espanhóis, mas porque havia sido assinado o Tratado das Tordesilhas, com aval do Papa, que dividiu as conquistas entre Espanhóis e Portugueses.
Então os outros, sobretudo os franceses, se sentiram injustiçados. Não se considerou o ponto de vista dos conquistados como injustiçados, mas a das demais nações com frotas de conquistas.
Aos espanhóis caberia a conquista das partes sul e oeste da América do Sul e a América Central e Caribe, aos ingleses, não contemplados no Acordo de Tordesilhas, a América do Norte.
No entanto, havia um acordo tácito entre espanhóis e portugueses qual seja o da aguada e abastecimento.
Naquela época haviam doenças e pragas que causavam muitas mortes nos navios. Assim os navios vindos do Cone Sul de regresso a Espanha, ancoravam em terras brasileiras, em determinados pontos da costa para renovar estoques de água e alimentos.
Entre esses pontos um dos que mais prosperou foi o Leme, onde haviam chácaras e água provenientes das encostas dos Morros de São João e do Babilônia. Para se imaginar o que era o Leme, basta imaginar a ausência do Túnel Novo e a presença do Morro do Inhangá, hoje escondido por ter sido dinamitado e separado em dois, e o que sobrou está por trás dos edifícios na rua em frente ao Teatro Gláucio Gil e por trás da Escola Estadual Pedro Álvares Cabral, na Rua República do Peru.
Assim o Leme foi importante para abastecimento da Cidade do Rio de Janeiro e das tropas estrangeiras e se estendia de onde fica hoje a rua República do Peru até o Morro do Leme, então chamado pròpriamente de morro da Vigia. O único acesso a ele era pela Ladeira do Leme, atual Rua Coelho Cintra.
Assim, era necessário que cuidassem da aproximação dos navios e isto só poderia ser divisado do alto dos morros.
Os portugueses verificaram que os índios também cuidavam estrategicamente de defender suas tribos das invasões por outras tribos.
Assim estabeleceram amizade, pelo mútuo interesse, com os índios e com isso estes ensinaram aos portugueses como defendiam essa área geográfica e como utilizavam a seu favor os pontos considerados fracos.
Os pontos fracos eram três. O Estreito do Humaitá, a Ladeira dos Tabajaras e a Ladeira do Leme. Os três eram importantes, mas a Ladeira do Leme por ser mais próxima a cidade era crucial, por isso, até hoje ali existe uma área de concentração de militares.
No entanto houve as invasões francesas, como se sabe. A mais trágica foi a do corsário francês Du Guay Trouin, havida em 1711. Ou seja, há exatos 300 anos.
A Estratégia – Após essa invasões o Marquês do Lavradio viu a necessidade de construir um Sistema de Defesa da Cidade do Rio de Janeiro
Viram então os portugueses que, ao contrário dos sistemas de defesas europeus, que compreendiam construções de castelos, fossos, áreas descampadas para visualização de aproximação dos inimigos, Mas esses sistemas defendiam as cidades e não o campo que abastecia as cidades. Mas as cidades dependiam do campo para seu abastecimento e da água, como até hoje. Por outro lado os índios defendiam a permanência da floresta, como estratégia para esconder seus deslocamentos e da floresta vinha seu abastecimento. Mais ainda esse sistema de abastecimento era permanente e eterno. Dependendo do conhecimento da área e de como fazê-lo. Coisa que os índios sabiam e poderiam ensinar.
Viram também então os portugueses que esses deslocamentos se davam por trilhas pelas partes mais altas dos morros. De lá desfrutando de ampla visão, de pontos mais altos que os castelos europeus, observavam os movimentos, mantendo comunicação com mediante mensageiros que desciam a pontos estratégicos onde se concentravam os guerreiros. Podendo ainda concentrar mais guerreiros se necessário.
Essas trilhas, no caso em questão, eram pelo alto dos Morros da Saudade, onde, havia concentração de tropas no vale cuja saída para o vale se dava por onde é hoje a Rua Macedo Sobrinho, e, por outro lado, por onde há até hoje uma comunidade escondida atualmente pelos prédios que fica em frente (no lado oposto ao CIEP Agostinho Neto), a trilha saindo do final da Rua Macedo Sobrinho, subia e ainda sobe ao alto do Morro da Saudade, de onde se vislumbra visão privilegiada da Lagoa Rodrigo de Feitas, continuando pelo alto do Morro passava por, onde é hoje a Comunidade de Tabajaras, onde havia outra concentração de tropas, vinha pelo alto do Morro de São João, descia para a Chacrinha, onde havia a maior concentração, ou descia para onde é hoje o Condomínio Morada do Sol, que a interrompeu.
A maior concentração era na Chacrinha porque era o ponto mais fraco e onde havia a maior fonte de água, onde eles puderam plantar árvores frutíferas, tais como jaqueiras, abacateiros, e onde havia perto outra fonte de alimentos, os peixes da praia. Ao lado da Chacrinha, supostamente morou um pescador chamado Teodoro, sobre o qual só existe tradição oral, mas num terreno pertencente atualmente a Light Serviços Elétricos e que deveria ser repassado para o Estado, existe as ruínas da que talvez seja a casa mais antiga do bairro e que supostamente pertenceu a este pescador.
Os morros eram cobertos de florestas, deixadas em seu estado natural e usadas como aliada. Essa floresta possuía e possui e ainda são usadas trilhas, desde o Humaitá até o Leme e até a Fortaleza de São João.
Nosso trabalho consistiu em demarcar com georreferenciamento essas trilhas e ruínas do tempo do Brasil Colônia existente desde o local onde hoje é o Parque Estadual da Chacrinha e o Alto do Morro da Babilônia.
Da Chacrinha para o Morro da Babilônia existem várias trilhas a demarcada foi a chamada trilha da tropa montada, até os Arcos sobre a Ladeira do Leme. A trilha sai da Chacrinha por onde é hoje a Rua Coelho Cintra (Ex- Ladeira do Leme), onde após fazer breve contorno onde hoje é a Delegacia da Vila Militar da Babilônia segue por cima dos arcos que foi mandado construir em 1728 pelo Marquês do Lavradio.
Há também várias ruínas desse Sistema de Defesa mandado erguer pelo Marquês do Lavradio.
Os terrenos do Sistema de Defesa desde a época do Marquês até hoje pertencem a União, sob guarda do Exército.
O Sistema resultou tão eficaz que após séculos voltou a ser utilizado novamente durante a Segunda Guerra Mundial, construindo-se casamatas no interior da mata e usando, novamente o alto dos morros como postos de observação e a floresta como aliada.
As trilhas vão desde o Humaitá, como dissemos e vão até a fortaleza de São João na entrada da Baía de Guanabara.
Nosso trabalho foi constituir uma equipe multidisciplinar, demarcar os pontos e elaborar um mapa entregue ao INEPAC para dessa forma proteger as ruínas do Sistema de Defesa.
Arcos sobre a Ladeira do Leme, mandado erguer pelo Marquês do Lavradio para o Sistema de Defesa da Cidade do Rio de Janeiro.
Ruínas do Ponto da Vigia no cume do Morro da Babilônia. A visão é 360º. Avista-se Copacabana, a Baía da Guanabara até a Serra dos Órgãos, Niterói e Maricá.
Coordenador: Ibá dos Santos Silva, Engenheiro Agrônomo. Historiadores Militares Consultados: Alba Bielinski e Roberto Barcellos. Geógrafo: Wilson Messias dos Santos Júnior com apoio de Luis Dias da Rocha Lima, Engenheiro Agrônomo e o Biólogo Leandro Jorge Telles Cardoso. Equipe Local da CoopBabilônia: Jair Coelho Agenor e Nilson Celestino Assunção Filho.
PHARMACIA POPULAR DE BANANAL SP
Pharmacia Popular, a farmácia mais antiga em funcionamento no Brasil: um acervo a ser salvo
Autores: FRANCISCO, B. H. R.1, BELTRÃO, C. B. de A. N.2
1-Centro Brasileiro de Arqueologia (CBA) – secretario1@cbarqueol.org.br; 2-Centro Brasileiro de Arqueologia (CBA) – secretario2@cbarqueol.org.br
Palavras-chave: farmacia, história, acervo
Resumo:
O trabalho pretende mostrar a importância da preservação do acervo da Pharmacia Popular, a mais antiga farmácia em funcionamento no Brasil. Alguns itens deste acervo são destacados como o formulário Chernovitz e as máquinas registradoras. Para a confecção do trabalho, foi realizada uma pesquisa bibliográfica, através de livros, artigos e vários sites na Internet, além de visitas in loco na Pharmacia Popular.
Abstract:
The study aims to show the importance of preserving the collection of Pharmacia Popular, which is the oldest pharmacy still acting in Brazil. Some items in this collection are highlighted as the Chernovitz form and registers cash. For this work an intensive bibliographic research was carried out through books, articles and many web sites, as well as site visits to the Pharmacia Popular.
1. A História da Pharmacia Popular
A Pharmacia Popular, situada na cidade de Bananal/SP, é a farmácia mais antiga do Brasil. Foi inaugurada em 1830, pelo boticário francês Tourin Domingos Monsier, o primeiro farmacêutico da cidade. Chamava-se Pharmacia Imperial até que Valeriano José da Costa, proprietário da Pharmacia em 1889, aconselhado por republicanos, trocou seu nome para Pharmacia Popular, com o fim da monarquia.
Seu patrimônio – que preserva instrumentos originais, sais, tinturas e potes de porcelana francesa da época do Império – faz parte do primeiro acervo cultural farmacêutico, sob o patrocínio da Roche do Brasil, com o apoio do Conselho Federal de Farmácia e da Academia Nacional de Farmácia. A farmácia e respectivo prédio pertenceu a Balkeriano José da Costa e a sucessivos proprietários até chegar, em 1922, às mãos de Ernani Graça, bisavô do atual proprietário.
Plínio Graça, recém-falecido e pai do proprietário atual da farmácia, duas vezes prefeito de Bananal e uma vez vice-prefeito, conservou a fachada, a máquina registradora, a balança, as ânforas e os vidros com pós, raízes e pomadas, potes de porcelana francesa rotulados em latim e dourados a ouro, cristais, alambiques de cobre e outros instrumentos originais. Uma grade separa funcionários que atendem os clientes em balcões feitos em pinho de Riga, ornadas por ânforas de cristal francês, contendo água colorida com anilina. Ao alto, bem posicionado, o busto de Hipócrates. O chão é todo revestido com ladrilhos franceses e os bancos de madeira de lei são os mesmos em que muitos se sentaram para esperar o aviamento das receitas. É totalmente revestida de ladrilhos franceses. Foi reformada uma vez, no fim do século XIX, adquirindo traços neo-clássicos.
Faz parte também do acervo da Pharmacia Popular o formulário de Chernoviz, publicado regularmente de 1830 a 1924, uma preciosidade da época dos boticários, que manipulavam ervas medicinais e fabricavam ungüentos e beberagens. Em suas 2.400 páginas, traz a descrição dos medicamentos, a posologia e o modo de preparo.
A Pharmacia Popular recebeu um prêmio da Fundação Roberto Marinho, por ser a mais antiga farmácia ainda em funcionamento no Brasil.
Em 2001, Plínio Graça, pai do atual proprietário, recebeu o certificado de “Defensor de Bens Culturais”, emitido pela Secretaria de Recuperação de Bens Culturais de São Paulo, pela preciosa contribuição restaurando e preservando o acervo da Pharmacia Popular.
2. O Acervo e sua Importância
- Formulário Chernovitz
Os manuais de medicina popular foram um tipo de produção literária sofisticada, frequentemente em forma de livros de grossos volumes, que expressava a ciência médica do Império a ser divulgada junto ao público leigo. Foram escritos pela autêntica elite médica - autores que, ou faziam parte da Academia Imperial de Medicina, ou tinham muito boas relações com as autoridades médicas e políticas do Império em geral. E, se essas obras representavam a legítima ciência da época, eram, igualmente, legítimos agentes de medicina popular, tamanha sua aceitação e difusão entre a população leiga que, através delas, pode diagnosticar e tratar de seus males.
O Formulário Chernovitz foi escrito pelo médico polonês Pedro Luiz Napoleão Chernovitz - Piotr Czerniewicz (1812-1881), que viveu no Brasil entre 1840-1855, cujo empreendimento editorial o tornou famoso e reconhecido nos meios científico e leigo. Essa "bíblia da saúde" foi, durante muito tempo, o livro mais lido e consultado, resolvendo situações prementes, suavizando dores, desfazendo aflições domésticas, curando, de fato, males de toda sorte. Daí a sucessão de suas edições.
O Formulário ou guia médico fazia jus a seu nome: dividido em várias seções, continha a descrição dos medicamentos, de suas propriedades e doses, além das moléstias em que deviam ser empregados. Mencionava também as plantas medicinais indígenas e as águas minerais do Brasil, bem como a arte de formular, ensinando a escolha das melhores fórmulas e indicando receitas úteis na economia doméstica. Todos os medicamentos de que a obra trata dividiam-se em 16 classes, cada uma com uma propriedade médica particular que, 'mais ou menos enérgica', encontrava-se em todas as substâncias. (Chernoviz, 1841). Ao lado dos medicamentos chamados 'officinaes' (xaropes, vinhos, extratos, tinturas, conservas, emplastos e unguentos), cujas fórmulas achavam-se nos códigos farmacêuticos sancionados pelas leis e vendidos já prontos nas boticas – e cujo prestígio variava em cada época – , os doentes também podiam dispor das receitas 'magistraes'. Estas últimas eram preparadas de acordo com as fórmulas de cada médico, segundo as necessidades específicas do paciente. O 'Chernoviz' distinguia, nas fórmulas, a 'base', isto é, o agente principal do medicamento que conteria o princípio ativo; o 'adjuvante', que serviria para aumentar as propriedades ou as virtudes da base; o 'corretivo', cuja finalidade era enfraquecer o sabor ou o cheiro, podendo também reduzir a atividade ou ação corrosiva; o 'excipiente', substância que serviria de veículo às outras três; por fim o 'intermédio', que servia para tornar o medicamento miscível em água ou outro excipiente. Assim, por exemplo, na Mistura Balsâmica de Fuller:
Copaíba – 2 onças
Gemas de ovo – n.2
Xarope de bálsamo de Tolu – 2 onças
Vinho Branco – 6 onças
A copaíba seria a base, o xarope, o corretivo, as gemas de ovo, o intermediário e o vinho branco, o excipiente.
Em outra seção, eram descritas as formas farmacêuticas dos medicamentos, então classificados em "bálsamos, cataplasmas, cáusticos, clisteres, elixires, emplastos, emulsões, espíritos, extratos, sangrias, sanguessugas, sinapismos, vesicatórios e ventosas". Desse arsenal, o Formulário ou guia médico oferece informações técnicas, verdadeiras relíquias sobre as artes médicas da época. Folheando a seção, ficamos sabendo que os 'cataplasmas', em forma de papas, eram geralmente elaborados com farinha de linhaça, féculas de batata ou miolo de pão. Nos 'vesicatórios ou cáusticos', aplicados como emplastros ou cataplasmas em afecções gangrenosas ou mordedura de animais peçonhentos (visando produzir uma secreção serosa e empolar a pele), além de mostarda e trovisco, empregava-se frequentemente uma papa elaborada a partir da maceração de um pequeno inseto, a 'cantárida'.
Noutra classificação, os medicamentos trazem referência à sua ação terapêutica. Destaque-se, neste caso, que até a vitória da concepção ontológica da doença, isto é, aquela que associa o ser 'doença' à ação de uma entidade específica, a medicina acadêmica tendia a conceber a doença como manifestação de múltiplas circunstâncias, de caráter externo (agentes físicos ou químicos) ou interno (constituição física, temperamento, idade, sexo, atividade ocupacional). Nesse caso, os terapêuticos eram de 21 tipos, conforme sua ação específica voltada a restabelecer a harmonia ou equilíbrio fisiológico. A ampla variedade de substâncias laxantes, catárticas ou drásticas – estas últimas as mais intensas – exigia destreza na arte de purgar, tão complexa e tão amplamente empregada quanto a de sangrar (Chernoviz, 1841). Essa classificação encontra-se na parte do formulário propriamente dito. Consiste na descrição, em ordem alfabética, de todas as substâncias então empregadas pela medicina acadêmica. Ao referir-se a cada medicamento, Chernoviz indicava sua sinonímia, a significação em francês, o nome botânico em latim, características físicas, propriedades, moléstias em que deviam ser empregadas, doses e pesos usuais, e riscos de eventuais associações.
Uma seção, a princípio inusitada para um guia médico, mas que se coaduna perfeitamente com o ideal iluminista e civilizatório de que se investia a elite médica, intitulava-se "Receitas diversas". Reuniam-se, aqui, várias receitas 'úteis nas artes e economia doméstica', tais como: água de colônia, tintas de escrever, venenos para a destruição de animais daninhos etc. Eram fornecidas também as composições de diversas preparações vendidas como 'segredos': pomadas de tingir cabelos, água para tirar nódoas de tinta de escrever e coisas semelhantes.
O Formulário ou guia médico também, ao que parece, não tinha um preço módico. O Almanaque Laemmert, de 1846, anunciava sua segunda edição 'aumentada e inteiramente reformada', de um volume encadernado, por seis mil-réis, ao passo que Os Lusíadas, o clássico de Camões, foi vendido no mesmo ano por quatro mil-réis, em dois volumes e com gravuras.
- Máquinas Registradoras
Entre os vários objetos do acervo da Pharmacia Popular, encontram-se duas máquinas registradoras, da marca National, provavelmente do final do século XIX ou início do séc. XX.
Uma curiosidade com relação à invenção da máquina registradora: em uma viagem de barco, o americano James Ritty ficou fascinado com a máquina que contava os giros da hélice. Na hora imaginou que aquela técnica poderia resolver os problemas de controle de caixa em seu bar. Em 1879, criou uma máquina que media a quantidade de dinheiro que entrava e saía através de teclas representando quantias de dinheiro. Com a invenção, James abriu uma fábrica e encheu sua caixa registradora de dinheiro.
Entre os milhares de documentos e objetos que compõem o acervo da Pharmacia Imperial, encontram-se potes de porcelana francesa rotulados em latim e dourados a ouro, balanças, pesos, alambiques e vários outros utensílios farmacêuticos.
3. Conclusão
Em funcionamento desde 1830, a Pharmacia Popular é a mais antiga farmácia em funcionamento no Brasil. Por 181 anos, seu precioso acervo foi preservado e passado de geração em geração. Com a morte recente de Plínio Graça, o proprietário de farmacia de 1956 a 2011, este acervo corre o risco de ser totalmente dizimado, caso não seja urgentemente catalogado e tombado.
Fontes de Informação:
- Estância Turística e Ecológica de Bananal: Terra dos Barões do Café/organizador Plínio Graça. – São Paulo: Noovha América, 2006. (Série conto, canto e encanto com a minha história...)
- A Estrada dos Tropeiros. http://www.fazendadabarra.com/estrada-dos-tropeiros.html
- Os Manuais de Medicina Popular de Chernoviz na Sociedade Imperial, por Maria Regina Cotrim Guimarães.
http://www.historia.uff.br/cantareira/novacantareira/artigos/edicao5/manuais.pdf
- Os Manuais de Medicina Popular do Império e as Doenças dos Escravos: o Exemplo do “Chernoviz”, por Maria Regina Cotrim Guimarães.
http://www.scielo.br/pdf/rlpf/v11n4s0/v11n4s0a09.pdf
- Abaixo-assinado online sobre o Tombamento do Acervo da Pharmacia Popular:
http://www.abaixoassinado.org/assinaturas/abaixoassinado/7266
II ELAA PROGRAMA DE VISITAS NO FIM DE SEMANA: 19 E 20 DE NOVEMBRO
II ELAA PROGRAMA DE VISITAS NO FIM DE SEMANA: 19 E 20 DE NOVEMBRO
VISITAS DURANTE O II ELAA
SÁBADO
PARQUE MUNICIPAL DE SÃO JOSÉ DE ITABORAI
MUNICIPIO DE ITABORAI RJ
SAIDA DA UERJ: 08 HORAS E RETORNO PREVISOT: 17 HORAS
UMA ANTIGA PEDREIRA DE CALCÁRIO DO TERCIÁRIO TRANSFORMADA EM PARQUE DEPOIS DA SAIDA DA EMPRESA MINERADORA
EM FASE DE IMPLANTAÇÃO DEFINITIVA DO PARQUE
RECUPERAÇÃO DOS IMÓVEIS
INSTALÇAÃO DO MUSEU E DOS LABORATÓRIOS
VISITA AO LOCAL DA PEDREIRA HOJE UMA LAGOA E SEU ENTORNO FOSSILIFERO
MORRO DA DINAMITE SITIO ARUQEOLÓGICO
EXPOSIÇÃO PALEOGEO ARQUEOLÓGICA
INTERESSES; ARQUEOLOGIA PRE-HISTÓRICA E HISTÓRICA (INSDUSTRIAL).
CURADORA: Dra Maria Antonieta Rodrigues, diretora da Faculdade de Geologia UERJ.
DOMINGO
MUSEU NACIONAL DA QUINTA DA BOA VISTA
DIRETORA DRA CLÁUDIA RODRIGUES
COM SEIS DEPARTAMENTOS SENDO UM DELES O DE ANTROPOLOGIA QUE ABRIGA O SETOR DE ARQUEOLOGIA.
CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ARQUEOLOGIA
EXPOSIÇÕES PERMANENTES E TEMPORÁRIAS
LOCAL: QUINTA DA BOA VISTA S/N SÃO CRISTÓVÃO
ACESSAO: TREM, METRÔ E ÔNIBUS
e- mail arq@mn.ufrj.br e/ou geoquater@mn.ufrj.br
SITE: www.ufrj.br/museu
Custo: 3,00 por visitante
CONTATO: SEÇÃO DE MUSEOLOGIA SEMU
CASA DOS PILÕES
JARDIM BOTÂNICO
BAIRRO JARDIM BOTÃNICOS
ACESSO: ÕNIBUS, AUTOMÓVEL.
TELEFONES:
SITE; www.jardimbotanico.gov.br ?????????confirmar
Horário de visita: 10h às 17h
Custo: 3,00 por visitante
SULTAYNA – MUSEU
BAIRRO Anchieta
Acesso ônibus, trem, automóveis
Museu criado por ARQUEÓLOGO Cláudio Prado MellO
Visitas somente agendadas
Contato: Cláudio Prado Mello
MUSEU DA CIENCIA DA TERRA
BAIRRO; URCA ZONA SUL DO RIO DE JANEIRO
]AVENIDA PAUSTEUR 404
ABERTO DE TERÇA AO DOMINGOS DE 10H AS 17 h
EXPOSIÇÃO DE MINERAIS, ROCHAS FÓSSEIS.
CUSTO: GRATIS
MORRO DO LEME
BAIRRO LEMA ZONA SUL
ACESSOS: ÕNIBUS, AUTOMÓVEL.
PRECISA DE AGENDAMENTO.
TELEFONES
CONTATO: IBA DOS SANTOS SILVA
Ocupações Humanas Pré-Coloniais no Baixo Rio Tapajós, Amazônia Brasileira
Título do Trabalho (sessão oral): Ocupações Humanas Pré-Coloniais no Baixo Rio Tapajós, Amazônia Brasileira
Cristiane Maria Pires MARTINS¹
1- Programa de Pós-Graduação em Antropologia/ Universidade Federal do Pará – cpmartins23@yahoo.com.br
Resumo: Vestígios arqueológicos de grupos indígenas pré-coloniais que ocuparam o baixo curso do rio Tapajós, sudoeste do estado do Pará, vêm apontando para a existência de contatos culturais regionais com grupos do baixo Amazonas. Tais vestígios atestam ainda a grande diversidade de formas de ocupações do espaço dada a grande variabilidade de cultura material e de tipos de sítios distribuídos na várzea e em terra firme. Este trabalho apresenta alguns dos resultados formulados durante a Especialização em Arqueologia cursada na Universidade Federal do Pará, onde se investigou a indústria ceramista do sítio Alvorada, município de Itaituba, datado em 680+/-50 BP., e que objetivou estudar os contatos culturais regionais sugeridos por comparações estilísticas da cultura material. A cerâmica em questão pode ser inserida no Horizonte Inciso/Ponteado, amplamente distribuído no baixo Amazonas e Tapajós. Os resultados obtidos através da análise tecnotipológica da amostra e suas correlações com diversas vasilhas reconstituídas, sua dispersão na estratigrafia, além de artefatos como argila temperada e placas de cerâmica apontam para a produção local de recipientes com uso dos padrões estilísticos difundidos regionalmente, porém com significados culturais próprios.
Palavras-chave: Arqueologia, Baixo rio Tapajós, Horizonte Inciso/Ponteado, Análise tecnotipológica de cerâmica arqueológica.
Abstract
Keywords: lista de até seis termos, separados por vírgula, uma linha abaixo do Resumo ou o seu correspondente;
1. Introdução
Este estudo trata da indústria ceramista do sítio arqueológico Alvorada (do tipo lito-cerâmico com Terra Preta Arqueológica), localizado no baixo curso do rio Tapajós, município de Itaituba, na micro-região sudoeste do estado do Pará, contextualizando-o regionalmente com outras investigações arqueológicas realizadas no baixo Amazonas como uma tentativa de contribuição ao debate sobre a ocupação indígena da região amazônica. O estudo dos vestígios cerâmicos objetivou identificar as escolhas sociais na produção desses utensílios, seu uso e descarte, considerando o artefato como um todo, e como representante de práticas de sociabilidade que circularam no passado para assegurar um pertencimento coletivo e regional. A datação de 680+/-50 BP insere o sítio no período de adensamento populacional do primeiro milênio da era cristã identificado para a região amazônica por outras pesquisas do entorno (GOMES, 2008; SCHAAN, 2011).
Os dados apresentados nesta análise foram obtidos no âmbito do Programa de Arqueologia (Programa de Identificação e Salvamento do Patrimônio Arqueológico BR-163 (Guarantã do Norte/Entroncamento BR-230) e BR-230 (Miritituba/Rurópolis) executado pelo Núcleo de Pesquisa e Ensino de Arqueologia da Universidade Federal do Pará (NPEA/UFPA), sob coordenação da professora Dra. Denise Pahl Schaan (SCHAAN & MARTINS, 2009).
2. Objetivo
O presente estudo objetiva caracterizar a indústria ceramista do sítio arqueológico Alvorada.
3. Materiais e Métodos
A análise tecnotipológica da cerâmica foi orientada para a caracterização estilística do espólio estudado através da identificação dos seus aspectos tecnológicos, morfológicos e decorativos, sendo contextualizados na estratigrafia do sítio e seu contexto de descarte.
A amostra analisada é composta por 4.168 fragmentos de diversos artefatos, além de 1733 micro-fragmentos (aqueles com até 3cm de tamanho). Fragmentos de bordas, bases, placas de cerâmica utilizadas para produção de vasilhames, pelotas de argila, fragmentos de pratos e de paredes foram analisados quanto às formas, técnicas de manufatura, queima, antiplásticos, e tipos de decoração plástica e pintada, para a caracterização do estilo da cerâmica. Realizaram-se reconstituições aproximadas de formas de vasilhames, a partir de bordas e bases, que foram confrontadas com modelos etnográficos para se inferir sobre as possíveis funções e usos dos recipientes.
4. Resultados
O material cerâmico se constituiu em maioria por fragmentos de cerâmica utilitária, no entanto alguns artefatos possuem confecção bastante elaborada, tendo como principal marcador a decoração pintada e plástica empregada em formas como pratos bem elaborados com flanges labiais, vaso do tipo gargalo e garrafas com decoração interna e externa. Com relação aos padrões decorativos que situam essa indústria ceramista no Horizonte Inciso/Ponteado, são indicadores os ponteados e/ou incisões diversas, filetes modelados aplicados, pintura vermelha e preta sobre engobo branco, apliques zoomorfos e intenso emprego de cauixi como antiplástico.
Foram reconstituídas 16 formas de vasilhas, dentre as quais ocorreram recipientes pequenos de uso individual, vasilhas fundas e rasas usadas para o processamento de alimentos sem aquecimento, além das placas de cerâmica utilizadas como suporte para confecção de outras vasilhas, e recipientes para cozinhar. Fazendo uma correspondência entre os tipos de vasilhas distribuídas pelo espaço do sítio, observamos uma maior variabilidade de formas onde ocorre a maior espessura de TPA do sítio e maior quantidade de material fragmentado em área que foi utilizada como lixeira. No geral, as formas não variaram significativamente em relação aos outros espólios de sítios já estudados no entorno, contudo o emprego de padrões decorativos pintados sem similares em outros sítios do baixo Amazonas, além dos artefatos associados a produção local de cerâmica (placas e pelotas de argila) sugere a possibilidade de inovações locais quanto à simbologia impressa na cultura material.
5. Discussões
A cerâmica analisada apresentou padrões estilísticos típicos do Horizonte Inciso/Ponteado, com motivos decorativos similares aos espólios encontrados em diversos sítios arqueológicos da região do baixo Amazonas. Contudo, algumas especificidades de decorações plásticas e, principalmente, pintadas, e motivos iconográficos impressos sob os vasilhames cerâmicos parecem sugerir outros usos, funções e simbologias da cultura material.
Através do estudo da indústria ceramista do sítio Alvorada, que integra um modo de fazer cerâmica amplamente difundido, pode-se inferir sobre a existência de interações culturais regionais no baixo Amazonas e baixo Tapajós no primeiro milênio da era cristã, materializadas nos objetos encontrados em contextos arqueológicos geograficamente distantes entre si. Com base nesta ideia propõe-se que contatos regionais e redes de trocas de ideias respondam pelo estilo compartilhado de se produzir recipientes de barro (ainda que tenham se adotado especificidades locais), como também pelas similaridades dos contextos de uso do espaço, tais como presença de TPA, ocorrência de artefatos de pedra polida e suas oficinas de polimento.
Essas investigações estão lançando novos dados sobre a ocupação indígena da região amazônica e sua continuidade poderá melhor esclarecer sobre o modo de vida pré-colonial no primeiro milênio da era cristã.
6. Referências Bibliográficas
GOMES, Denise C. 2008. Cotidiano e poder na Amazônia pré-colonial. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo/Fapesp, 2008.
HILBERT, Peter Paul. 1955. A Cerâmica arqueológica da região de Oriximiná. Publicações do Instituto de Antropologia e Etnologia do Pará, pp.1-76.
_____ & HILBERT, Klaus. 1980. Resultados preliminares da pesquisa arqueológica nos rios Nhamundá e Trombetas, Baixo Amazonas. In: Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, vol. 75, pp. 1-15.
SCHAAN, Denise P. & MARTINS, Cristiane M. P. 2009. Programa de Identificação e Salvamento do Patrimônio Arqueológico na BR-163 (Guarantã do Norte/Entroncamento BR-230) e BR-230 (Miritituba/Rurópolis). Relatório de Salvamento Arqueológico na BR-230: Trecho Km30 a Rurópolis. (não publicado).
SCHAAN, Denise P. 2011. Sacred geographies of ancient Amazonia. Cap. III – Ponds, lakes and feasts: the geography of anthropogenic soils. Walnut Creek, Left Coast Press, (no prelo).
TRABALHOS INSCRITOS NO II ELAA DO CBA
TRABALHOS INSCRITOS PARA O II ELAA – PROGRAMAÇÃO DAS APRESENTAÇÕES
Segunda, dia 21.11:
Apresentações orais:
- Rede de Museus e Acervos Arqueológicos (REMAAE): ativismo para a preservação do patrimônio arqueológico - Alejandra Saladino
- Arqueologia evolutiva, estilo e função: possibilidades e limites de interpretações da cultura material dos sítios Tupiguarani da Zona da Mata mineira - Leandro Mageste
- Horticultores do Tapajós: Contexto formativo no sítio porto de Santarém, baixo Amazonas, Pará?Informações preliminares - Daiana T. Alves
- Experiências com a oralidade: sinergia do aprender e ensinar - Camila Leal
- Arqueologia Preventiva e Arqueologia Industrial: Origens da Indústria Mineradora em Minas Gerais – Ronaldo Rodrigues
Posters:
- A Musa Paradisiaca: da Pré-história aos Dias Atuais - Catherine Beltrão
- Bananal: Arqueologia Histórica - Benedicto Rodrigues
- Pharmacia Popular, a farmácia mais antiga em funcionamento no Brasil: um acervo a ser salvo - Benedicto Rodrigues
- A Fazenda Capão do Bispo e os engenhos do ciclo da cana de açúcar do Município do Rio de Janeiro/RJ - Vanessa Francisco
- Nova Friburgo, a primeira célula urbana do Brasil a ser projetada - Catherine Beltrão
Terça, dia 22.11:
Apresentações orais:
- Sobre a Arqueologia Histórica e a Vila de Santo Antônio do Madeira - Ney Gomes
- Transformando a matéria: cadeia operatória de machados líticos em sítios do interflúvio Jamanxim Curuá - Tallyta Suenny
- História do Sistema de Defesa da Cidade do Rio de Janeiro - Ibá dos Santos
- Ocupações Humanas Pré-Coloniais no Baixo Rio Tapajós, Amazônia Brasileira - Cristiane Martins
Posters:
- O impasse do “conto de fadas” darwinista– uma perspectiva pluralista às novas e velhas cronologias extremas para o Continente Americano - Antonio Carlos Andrada
- A Gruta do Frei Vicente Bernedo nos Andes Bolivianos: um Exemplo a Ser Preservado - Telma Salesa
- Uma Breve Introdução à Arqueomitologia - Lennon Matos
- Possibilidades e vantagens de uma Arqueologia Histórica - Rhuan Lopes
Possibilidades e vantagens de uma Arqueologia Histórica Rhuan Carlos dos Santos LOPES Universidade Federal do Pará (UFPA) – rhuanlopes@ufpa.br
Possibilidades e vantagens de uma Arqueologia Histórica
Rhuan Carlos dos Santos LOPES
Universidade Federal do Pará (UFPA) – rhuanlopes@ufpa.br
Resumo: A articulação multidisciplinar da Arqueologia Histórica permite aos pesquisadores dessa disciplina a geração de informações pouco disponíveis em fontes escritas. Nesse sentido, é premente que os arqueólogos produzam um conhecimento que vá além da mera comprovação do que já está posto por outros pesquisadores que se dedicam ao estudo do passado. Assim, este trabalho discute a proficuidade da Arqueologia Histórica no quadro das ciências humanas e da sociedade contemporânea. A partir disso, direciono esse debate para a minha pesquisa em andamento sobre a urbanização da Belém (PA) colonial.
Palavras-chaves: Arqueologia Histórica, Arqueologia do Capitalismo, Belém (PA).
Abstract: The multidisciplinary articulation of Historical Archaeology researchers in this discipline allows the generation of information not readily available in written sources. Therefore, it is urgent that archaeologists produce a knowledge that goes beyond mere proof of that is laid by other researchers who are dedicated to the study of the past. Thus, this paper discusses the usefulness of Historical Archaeology in the context of the humanities and contemporary society. From this address with this debate for my ongoing research on the urbanization of colonial Belém (PA).
Keywords: Historical Archaeology, Capitalism Archaeology, Belém (PA).
1. Introdução
O movimento de colonização desencadeado na Europa no século XV tem sido alvo de sistemáticos estudos históricos. Se pensarmos o caso da América portuguesa, ao menos desde 1838 com a criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, historiadores se debruçam no tema da conquista portuguesa no que viria a ser o Brasil. Preliminarmente, é esse o recorte temporal da arqueologia histórica e, portanto, de onde estão sendo desenvolvidos trabalhos diversos. Deetz (apud DEAGAN, 1991), todavia, questiona a dedicação dos arqueólogos em aprender algo que os historiadores já sabem. Isto posto, pode-se questionar a utilidade da arqueologia histórica no quadro das ciências humanas e da sociedade contemporânea. Tratamos disto nesse texto, tendo como exemplo minha pesquisa em andamento sobre a urbanização da Belém colonial.
2. Arqueologia Histórica: para que serve?
A crítica de Deetz, por certo, não apregoa o fim do da disciplina. Podemos entendê-la em um sentido mais amplo, tendo em vista a natureza do trabalho arqueológico: o estudo das sociedades através de sua cultura material. Como afirma Deagan (1991, p. 102), a arqueologia histórica proporciona uma “articulação e integração multidisciplinar de evidências do mundo da cultura material, natural, intelectual e social, tanto no presente quanto no passado”.
Esse tipo de perspectiva justifica, em parte, a necessidade de pesquisas a partir dessa disciplina. Se pensarmos em sua definição, podemos alcançar outra relevância científica. Orser Junior (1992, p. 23), define a arqueologia histórica como “o estudo arqueológico dos aspectos materiais, em termos históricos, culturais e sociais concretos, dos efeitos do mercantilismo e do capitalismo que foram trazidos da Europa em fins do século XV e que continua em ação ainda hoje”. Trata-se, portanto, do estudo tanto da expansão de um modo de pensar, como também de seu “consequente desenvolvimento e impacto nas populações nativas em todas as partes do mundo” (DEETZ, 1991, p. 1). Sendo a expansão do mercantilismo um fenômeno mundial, o arqueólogo histórico necessita de um olhar que vise uma escala global, sem desconsiderar as particularidades de seus objetos de estudo (ORSER JUNIOR, 1992). Daí ser possível uma abordagem comparativa (DEETZ, 1991), já que, por exemplo, povos nativos foram extintos e/ou assimilados nessa dinâmica.
Pensa-se com isso que a arqueologia histórica deva ser uma “arqueologia do capitalismo”, sem, contudo, naturalizar o sistema capitalista e a globalização ainda vigente (LIMA, 2002, p. 17). Deve-se, isso sim, estabelecer críticas a essa forma de exploração, seja no seu nascedouro ou na contemporaneidade (LIMA, 2002). Tratando essa disciplina de um período já bastante estudado por historiadores e amplamente documentado pelas fontes escritas, o arqueólogo tem como ofício não apenas confirmar o que está posto. O estudo da cultura material, mesmo que associada aos documentos textuais e iconográficos, permite uma abordagem que alcance outra dimensão de informações, chegando inclusive ao conhecimento de grupos e contextos não registradas por outro meio (ORSER JUNIOR, 1992; LIMA, 1993).
Neste sentido, os arqueólogos ao se dedicarem à cultura material conseguem confrontar o registro escrito e chegar à vida cotidiana, ou seja, “aos domínios cognitivos do comportamento cultural” (LIMA, 1993, p. 230). Esta perspectiva singular permite o encontro dos agentes sociais inferiorizados, dos nativos “descobertos” na expansão do mercantilismo, ou ainda dos que sofreram com as diásporas condicionadas pelas necessidades mercantis.
Pesquisar os grupos invisibilizados pela história oficial é uma das vertentes profícuas da arqueologia histórica, o que nos faz pensar na importância dessa ciência no mundo contemporâneo, herdeiro de muitos discursos colonialistas. Nesse sentido, o debate sobre etnicidade aparece como uma questão premente. A discussão se dá no âmbito da possibilidade de identificação, no registro arqueológico, de determinados grupos étnicos, tendo em vista as indicações presentes na documentação escrita (FESLER & FRANKLIN, 1999; JONES, 2005). Para Jones (2005), não é razoável que o arqueólogo busque tão somente os correspondentes diretos para as identidades étnicas. Isso é um problema, na medida em que a etnicidade é algo dinâmico e culturalmente construído; além disso, os registros arqueológicos e escritos são essencialmente subjetivos, sendo por isso difícil estabelecer esse tipo de relação direta (JONES, 2005). Sem que se busque uma etnicidade estática no registro arqueológico, é totalmente possível uma análise arqueológica com esse intuito, já que todos os objetos manipulados em um grupo estão imbuídos de etnicidade (FESLER & FRANKLIN, 1999).
3. A Belém colonial através da arqueologia
É com essa perspectiva plural da arqueologia histórica que pretendo dar prosseguimento em minha pesquisa sobre a urbanidade de Belém, antiga capital do estado do Grão-Pará e Maranhão, no período colonial. Intenciona-se, com isso, analisar a constituição da cultura urbana de Belém a partir dos aspectos dos artefatos recolhidos nas escavações efetuadas na área mais antiga da cidade, no sentido de compreender as dinâmicas sociais representativas do lugar. Busca-se, dessa forma, contribuir para o entendimento das dimensões da ocupação européia na Amazônia, tendo em vista as suas relações estabelecidas com os povos nativos, o meio ambiente e o consequente impacto da colonização na região, tendo em vista a conformação de uma cultura urbana.
Os objetos evidenciados nas escavações do Forte do Presépio, por exemplo, nos permite “o conhecimento de um amplo repertório de expressões de culturas materiais da sociedade que tem vivido na área do Forte desde épocas anteriores à sua construção” (MARQUES, 2006, p. 187). Constam nesse acervo arqueológico vasilhas com “formas e decorações” de origem cabocla; cachimbos de caulim de origem européia produzidos em fins do século XVIII; utensílios domésticos, como “potes, bilhas, vasos para plantas” típicos do período pós-contato; fragmentos de faianças portuguesas consumidas entre os séculos XVI e XVIII (MARQUES, 2006, pp. 177-180).
A arqueologia histórica tem grande significado e proficuidade em um estudo com esse foco, posto que se possa alcançar a vida material da Amazônia (MARQUES, 2006), indo além do que está registrado na vasta documentação escrita do período. Tendo em vista a grande mestiçagem da Belém colonial e as dinâmicas político-econômicas de então (GUZMÁN, 2008), a cultura material pode ser lida em seu papel ativo nesse contexto. Uma cidade mestiça, nesse sentido, mostra-se bem mais viva se vista pela sua cultura material, sem desconsiderar as outras fontes importantes para o arqueólogo.
4. Conclusão
Se a arqueologia tem de servir a algo, deve ser ao entendimento do comportamento humano (LITTLE, 2007), especificamente no contexto das relações de dominação inerentes ao capitalismo. Em nosso caso de estudo, a expansão colonialista insere a história da América nas dinâmicas européias dos seiscentos, onde o Novo Mundo era palco de disputas, encontros e embates entre diferenciados agentes (COELHO, 2006).
Estudar esse momento pelo viés da arqueologia histórica nos permite a visualização de, ao menos, mais uma das dimensões complexas do passado. Se este passado possui grande relevância na vida moderna (LITTLE, 2007), os arqueólogos devem se esforçar em mostrar as vozes antes silenciadas nos registros escritos. A arqueologia do capitalismo tem na cultura material uma dimensão concreta de relações sociais (LIMA, 2011) e, portanto, a chave para o entendimento das relações de dominação e resistência das quais somos herdeiros.
Referências
COELHO, Geraldo Mártires et al. Forte do Castelo: cenários e enredos culturais. In: PARÁ.Secretaria Executiva de Cultura do Estado do Pará. FELIZ Lusitânia: Forte do Presépio, Casa das Onze Janelas, Casario da Rua Padre Champagnat. Belém: SECULT, 2006, pp. 21-68.
DEAGAN, Kathleen. Historical archaeology’s contributions to our understanding of early America. In: FALK, Lisa. Historical archaeology in global perspective. Washigton/London: Smithsoniaan Institution Press, 1991, pp. 97-111.
DEETZ, James. Introduction: archaeological evidence of sixteenth- and seventeenth-century encouters. In: FALK, Lisa, op. cit, pp. 1-9.
FESLER, Garret; FRANKLIN, Maria. The exploration of ethnicity and the historical archaeological record. In: ______ (ed.). Historical archaeology, identity formation, and the interpretation of ethnicity. Virginia: Colonial Williamsburg Foundation, 1999, pp. 1-10.
GUZMÁN, Décio de Alencar. A primeira urbanização: mamelucos, índios e europeus nas cidades Pombalinas da Amazônia, 1751-1757. REVISTA DE CULTURA DO PARÁ. v. 18, n. 1 (jan./jul. 2008), pp. 75-94.
JONES, Siân. Categorias históricas e a práxis da identidade: a interpretação da etnicidade na arqueologia histórica. In: FUNARI, Pedro Paulo et al. (orgs.). Identidades, discurso e poder: estudos da arqueologia contemporânea. São Paulo: Annablume; Fapesp, 2005, pp. 27-57.
LIMA, Tânia Andrade. Arqueologia Histórica no Brasil: balanço bibliográfico (1960-1991). In: Anais do Museu Paulista Nova Série Nº 1 1993.
______. Os marcos teóricos da arqueologia histórica, suas possibilidades e limites. Estudos Ibero-Americanos, PUCRS, v. XXVIII, n. 2, pp. 7-23, dez. 2002.
______. Cultura material: a dimensão concreta das relações sociais. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, v. 6, n. 1, pp. 11-23, jan.-abr. 2011.
LITTLE, Barbara J. Historical Archaeology. Why the past matters. Walnut Creek: Left Coast Press, 2077.
MARQUES, Fernando L.T. Investigação arqueológica na Feliz Lusitânia. In: PARÁ.Secretaria Executiva de Cultura do Estado do Pará. FELIZ Lusitânia: Forte do Presépio, Casa das Onze Janelas, Casario da Rua Padre Champagnat. Belém: SECULT, 2006, pp. 147-187.
ORSER JR., Charles E. Introdução à Arqueologia Histórica. Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1992.
Telma Salesa Santana da Silva e Gerson Luiz Passos da Silva
tsssiva@ig.com.br Junior_glp@hotmail.com
A
Palvras chave: gruta, Andes, Bolivia, preservação, Potosi.
Em 1566 até 1619 o Frei Vicente Bernedo viveu numa gruta nos altos
Andes Bolivianos. essa gruta fica localizada numa formação rochosa na
localidade de Vitichi, no estado de Potosi.
Passaram-se muitos anos, e ainda hoje os bolivianos continuam
realizando a via sacra iniciada pelo Frei Bernedo.
Visitei a Gruta em 06/05/2006 quando trabalhava no Projeto da estrada
tsssiva@ig.com.br Junior_glp@hotmail.com
A
RESUMO
Este trabalho aborda uma localidade nos Altos Andes Bolivianos onde há
uma gruta que foi moradia no fim do século XVI e início do século XVII de um frei que ali realizava vias sacras diariamente.
O local continua sendo visitado, sendo uma das atrações turísticas de Vitichi apesar do acesso ser muito difícil.Tudo indica que a religiosidade mantida através dos séculos e iniciada pelo trabalho do Frei Vicente Bernardo concorreu para a preservação do sitio histórico, geológico e geomorfológico intacto até os dias de hoje.
Abstract
This paper addresses a location in the Bolivian High Andes where there
a cave that was home in the XVI and XVII centuries. Brother of a
sacred process that performed there daily. The site continues being
visited, one of the tourist attractions despite Vitichi access is very
difícult.All indicates that religiosity maintained through the
centuries and initiated by the work of Vicente Bernedo contributed to
the preservation of the historical, geological and geomorphological
until the present day.
Palvras chave: gruta, Andes, Bolivia, preservação, Potosi.
Em 1566 até 1619 o Frei Vicente Bernedo viveu numa gruta nos altos
Andes Bolivianos. essa gruta fica localizada numa formação rochosa na
localidade de Vitichi, no estado de Potosi.
Frei Bernedo era conhecido como apóstolo do altiplano por ser um pregador intinenate.
A preseça de Frei Bernedo em Potosi ( Bolívia), onde se encontram centros minerais mais ricos do mundo, e onde os poderosos se enriqueciam as custas das vidas dos índios da localidade. foi uma pedra de choque, o frei em uma vida de oração e penitência, se converteu em uma voz acusadora de injustiça. Realmente foi um servidor
fiel do evangelho e sempre atento as necessidades dos pobres.
A súbita a esta gruta é íngreme e difícil acesso porém leva os peregrinos e visitantes ao local.
O que tem de tão atraente nessa gruta foi o tipo de vida, que
Frei Bernedo enquanto viveu ali realizava via sacra diariamente no local.
A súbita a esta gruta é íngreme e difícil acesso porém leva os peregrinos e visitantes ao local.
O que tem de tão atraente nessa gruta foi o tipo de vida, que
Frei Bernedo enquanto viveu ali realizava via sacra diariamente no local.
Passaram-se muitos anos, e ainda hoje os bolivianos continuam
realizando a via sacra iniciada pelo Frei Bernedo.
Visitei a Gruta em 06/05/2006 quando trabalhava no Projeto da estrada
Tarija - Potosi e o tramo que esta gruta se encontra é Vitichi - Cotaidata
O que se percebe é o estado praticamente intocado que permanece através
dos séculos.
Um exemplo de preservação de valores históricos, religiosos e ecológicos inclusos no importante sitio geológico-geomorfógico dos Andes Bolivianos>
dos séculos.
Um exemplo de preservação de valores históricos, religiosos e ecológicos inclusos no importante sitio geológico-geomorfógico dos Andes Bolivianos>
entrada da gruta do FREI BERNEDO
entrada da gruta do FREI BERNEDO
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