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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

PHARMACIA MAIS ANTIGA DO BRASIL

O TRISTE FIM DA PHARMACIA POPULAR DE BANANAL, A CIDADE FICOU MIL VEZES MAIS POBRE.







A PHARMACIA POPULAR ACABA MAS FICA NA MEMÓRIA NACIONAL, SENDO DOCUMENTADA E FAZENDO PARTE DA HISTÓRIA DO BRASIL.







VIVA A PHARMACIA POPULAR DE BANANAL.





BENE RODRIGUES

DIRETOR DO CENTRO BRASILEIRO DE ARQUEOLOGIA

sábado, 7 de janeiro de 2012

ANAIS DO I ENCONTRO LATINO AMERICANO DE ARQUEOLOGIA























Publicação dos resumos do Primeiro Encontro Latino Americano de Arqueologia,  realizado em 2005 no Clube de Engenharia.
Esse material histórico acha-se disponível em CD.
O material postado nos anais é cópia direta do material constante do CD





OS MAIAS
Palestrante convidada
Aparecida Açucena

Evidências arqueológicas mostram que os maias começaram a edificar sua arquitetura cerimonial há uns 3000 anos. Entre os estudiosos há certo desacordo entre os limites e diferenças entre a civilização maia e a cultura meso-americana pré-clássica vizinha dos Olmecas. Os olmecas e os maias antigos parecem ter-se influenciado mutuamente.
Os monumentos mais antigos consistem em simples montículos onde construíram tumbas funerárias, precursoras das pirâmides erigidas mais tarde.
Eventualmente, a cultura olmeca ter-se-ia desvanecido depois de dispersar a sua influência na península de Iucatã, na Guatemala e em outras regiões.
Os maias construíram as famosas cidades de Tikal, Palenque, Copán, e Kalakmul, também Uaxactún, Altún Ha, e muitos outros centros habitacionais na área. Desenvolveram um império baseado na agricultura depois de uma longa fase de cidades estados independentes. Os monumentos mais notáveis são as pirâmides que construíram em seus centros religiosos, junto aos palácios de seus governantes. Outros restos arqueológicos muito importantes são as chamadas estelas (os maias as chamam de Tetún, ou “tres piedras”), monolitos de proporções consideráveis que descrevem os governantes da época; sua genealogia, seus feitos de gueraa e outros grandes eventos, gravados em caracteres hieroglíficos.
Os maias participavam ativamente no comércio em toda a Meso-América e possivelmente além. Entre os principais produtos do comércio estavam o Cacau, Sal, e Obsidiana.
Muitos consideram a Arte maia da Era Clássica (200 a 900 d.C.) como a mais sofisticada e bela do Novo Mundo antigo. Os entalhes e relevos em estuque de Palenque e o estatuário de Copán são especialmente refinados, mostrando uma graça e observação precisa da forma humana, que recordaram aos primeiros arqueólogos da civilização do Velho Mundo, daí o nome dado à era.







Somente existem fragmentos da Pintura avançada dos maias clássicos, a maioria sobrevivente em artefatos funerários e outras cerâmicas. Também existe uma construção em Bonampak que tem murais antigos e que afortunadamente, sobreviveram a um acidente.
Com as decifrações da escrita maia se descobriu que essa civilização foi uma das poucas nas quais os artistas escreviam seu nome em seus trabalhos.


Arquitetura

Tão única e espetacular como a arquitetura grega ou romana, a arquitetura maia abarca vários milênios; ainda assim, mais dramática e facilmente reconhecíveis como maias são as fantásticas pirâmides escalonadas do final do período pré-clássico em diante. Durante este período da cultura maia, os centros de poder religioso, comercial e burocrático cresceram para se tornarem incríveis cidades como Chichén Itzá, Tikal e Uxmal. Devido às suas muitas semelhanças assim como diferenças estilísticas, os restos da arquitetura maia são uma chave importante para o entendimento da evolução de sua antiga civilização.

Desenho urbano

Ainda que as cidades maias estivessem dispersas na diversidade da geografia da meso-América, o efeito do planejamento parecia ser mínimo; suas cidades foram construídas de uma maneira um pouco descuidada, como ditava a topografia e declive particular. A arquitetura maia tendia a integrar um alto grau de características naturais. Por exemplo, algumas cidades existentes nas planícies de pedra calcária no norte do Iucatã se converteram em municipalidades muito extensas enquanto que outras, construídas nas colinas do rio Usumacinta, utilizaram os declives e montes naturais de sua topografia para elevar suas torres e templos a alturas impressionantes. Ainda assim prevalece algum sentido de ordem, como é requerido por qualquer grande cidade. No começo da construção em grande escala, geralmente se estabelecia um alinhamento com as direções cardinais e, dependendo do declive e das disponibilidades de recursos naturais como água fresca (poços ou cenotes), a cidade crescia conectando grandes praças com as numerosas plataformas que formavam os fundamentos de quase todos os edifícios maias, por meio de calçadas ou sacbeob. No coração das cidades maias existiam grandes praças rodeadas por edifícios governamentais e religiosos, como a acrópole real, grandes templos de pirâmides e ocasionalmente canchas de jogo de bola. Imediatamente para fora destes centros rituais estavam as estruturas das pessoas menos nobres, tempos menores e santuários individuais. Entretanto, quanto menos sagrada e importante era a estrutura, maior era o grau de privacidade. Uma vez estabelecidas, as estruturas não eram desviadas de suas funções nem outras eram construídas, mas as existentes eram freqüentemente reconstruídas ou remodeladas.
 As grandes cidades maias pareciam tomar uma identidade quase aleatória, que contrasta profundamente com outras cidades da meso-américa como Teotihuacán em sua construção rígida e quadriculada. Ainda que a cidade se dispusesse no terreno na forma em que a natureza ditara, se punha cuidadosa atenção à orientação direcional dos templos e observatórios para que fossem construídos de acordo com a interpretação maia das órbitas das estrelas. Afora os centros urbanos constantemente em evolução, havia os lugares menos permanentes e mais modestos do povo comum.
O desenho urbano maia pode descrever-se singelamente como a divisão do espaço em grandes monumentos e calçadas. Neste caso, as praças públicas ao ar livre eram os lugares de reunião para as pessoas. Por esta razão, o enfoque no desenho urbano tornava o espaço interior das construções completamente secundário. Somente no período pós-clássico tardio, as grandes cidades maias se converteram em fortalezas que já não possuíam a maioria das vezes, as grandes e numerosas praças do período clássico.




Processo de Construção

Todas as evidências parecem sugerir que a maioria dos edifícios foi construída sobre plataformas aterradas cuja altura variava de menos de um metro, no caso de terraços e estruturas menores, a até quarenta e cinco metros no caso de grandes templos e pirâmides. Uma trama inclinada de pedras partia das plataformas em pelo menos um dos lados, contribuindo para a aparência bi-simétrica comum à arquitetura maia. Dependendo das tendências estilísticas que prevaleciam na área e época, estas plataformas eram construídas de um corte e um aterro de entulhos densamente compactado.

BANNER DO I ELAA

OS MAIAS


 Como no caso de muitas outras estruturas, os relevos maias que os adornavam, quase sempre se relacionavam com o propósito da estrutura a que se destinavam. Depois de terminadas, as grandes residências e templos eram construídos sobre as plataformas. Em tais construções, sempre erguidas sobre tais plataformas, é evidente o privilégio dado ao aspecto estético exterior em contra-ponto a pouca atenção à utilidade e funcionalidade do interior. Parece haver um certo aspecto repetitivo quanto aos vãos das construções nos quais os arcos (como curvas) são raros, mas freqüentemente retos, angulados ou imbricados, tentando mais reproduzir a aparência de uma cabana maia, do que efetivamente incrementar o espaço interior. Como eram necessárias grossas paredes para sustentar o teto, alguns edifícios das épocas mais posteriores utilizaram arcos repetidos ou uma abóbada arqueada para construir o que os maias denominavam pinbal, ou saunas, como a do Templo da Cruz em Palenque. Ainda que completadas as estruturas, a elas iam se anexando extensos trabalhos de relevo ou pelo menos reboco para aplainar quaisquer imperfeições. Muitas vezes sob tais rebocos foram encontrados outros trabalhos de entalhes e dintéis e até mesmo pedras de fachadas. Comumente a decoração com faixas de relevos era feita em redor de toda a estrutura, provendo uma grande variedade de obras de arte relativas aos habitantes ou ao propósito do edifício. Nos interiores e notadamente em certo período foi comum o uso de revestimentos em reboco primorosamente pintados com cenas do uso cotidiano ou cerimonial.



Há sugestão de que as reconstruções e remodelações ocorriam em virtude do encerramento de um ciclo completo do calendário maia de conta larga, de 52 anos. Atualmente, pensa-se que as reconstruções eram mais instigadas por razões políticas do que pelo encerramento do ciclo do calendário, já que teria havido coincidência com a data da assunção de novos governantes.
Não obstante, o processo de reconstrução em cima de estruturas velhas é uma prática comum. Notavelmente, a acrópole de Tikal, parece ser a síntese de um total de 1500 anos de modificações arquitetônicas.

Plataformas Cerimoniais

Estas eram comumente plataformas de pedra calcária com muros de menos de quatro metros de altura onde se realizavam cerimônias públicas e ritos religiosos. Construídas nas grandes plataformas, eram ao menos realçadas com figuras talhadas em pedra e às vezes tzompantli ou uma estaca usada para exibir as cabeças das vítimas ou sejam, os oponentes derrotados nos jogos de bola meso-americanos.PalácioGrandes e geralmente muito decorados, os palácios geralmente ficavam próximos do centro das cidades e hospedavam a elite da população. Qualquer palácio real grande ou ao menos que tivesse várias câmaras ou erguido em vários níveis, tem sido chamado de acrópole. Tais construções consistiam de várias pequenas câmaras ou pelo menos um pátio interno, parecendo propositadas a servirem de residência a uma pessoa ou pequeno grupo familiar decorada como tal. Os arqueólogos parecem estar de acordo em que muitos palácios são também o lugar de muitas tumbas mortuárias. Em [(Copán]], debaixo de 400 anos de remodelações posteriores, se descobriu a tumba de um de seus antigos governantes e a acrópole de Tikal parece ter sido o lugar de vários sepultamentos do final do período pré-clássico e início do clGrupos E
Os estudiosos têm denominado de “Grupo E” à freqüentemente encontrada formação de três pequenas construções, sempre situadas a oeste das cidades, tratando-se de um intrigante mistério a sua recorrência. Estas construções sempre incluem pelo menos uma pequena pirâmide-templo a oeste da praça principal que tem sido aceita como observatório devido ao seu preciso posicionamento em relação ao Sol, quando observado da pirâmide principal nos solstícios e equinócios. Outras teses sugerem que sua localização reproduz ou pelo menos se relaciona com a história da criação do universo segundo a mitologia maia.





Pirâmides e Templos

Com freqüência os templos religiosos mais importantes se encontravam em cima das pirâmides maias, supostamente por ser o lugar mais perto do céu. Embora recentes descobertas apontem para o uso extensivo de pirâmides como tumbas, os templos raramente parecem ter contido sepulturas. A falta de câmaras funerárias indica que o propósito de tais pirâmides não é servir como tumbas e se as encerram isto é incidental. Pelas íngremes escadarias, se permitia aos sacerdotes e oficiantes o acesso ao cume da pirâmide onde havia três pequenas câmaras com propósitos rituais. Os templos sobre as pirâmides, a mais de 60 metros de altura, como El Mirador, de onde se descortinava o horizonte ao longe, constituíram estruturas impressionantes e espetaculares, ricamente decoradas. Comumente possuíam uma crista sobre o teto, ou um grande muro que, teorizam, poderia ter servido para a escrita de sinais rituais para serem vistos por todos. Como eram ocasionalmente as únicas estruturas que excediam a altura da selva, as cristas sobre os templos eram minuciosamente talhadas com representações dos governantes que se podiam ver de grandes distâncias. Debaixo dos orgulhosos templos estavam as pirâmides que eram, em última instância, uma série de plataformas divididas por escadarias empinadas que davam acesso ao templo.
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Observatórios Astronômicos

Os maias foram excepcionais astrônomos e mapearam as fases e cursos de diversos corpos celestes, especialmente da Lua e de Vênus. Muitos de seus templos tinham janelas e miras demarcatórias (e provavelmente outros aparatos) para acompanhar e medir o progresso das rotas dos objetos observados. Templos arredondados, quase sempre relacionados com Kukulcan, são talvez os mais descritos como observatórios pelos mais modernos guias turísticos de ruínas, mas não há evidências que o seu uso tinha esta exclusivamente finalidade, como também, em vários templos sobre pirâmides foram encontradas marcações de miras que indicam que observações astronômicas também foram feitas dalí.

Canchas de Jogos de Bola

Um aspecto interessante do estilo de vida meso-americano é o seu jogo de bola ritual e suas canchas ou estádio, que foram construídos por todo o império maia em grande escala. Estes estádios normalmente situavam-se nos centros das cidades. Tratava-se de espaços amplos entre duas laterais de plataformas ou rampas escalonadas paralelas, em forma de “I” maiúsculo direcionado uma plataforma cerimonial ou templo menor. Tais canchas foram encontradas na maioria das cidades maias, exceto nas menores.

Sistema de Escrita

O sistema de escrita maia (geralmente chamada hieroglífica por uma vaga semelhança com a escrita do antigo Egito, com o qual não se relaciona) era uma combinação de símbolos fonéticos e ideogramas. É o único sistema de escrita do novo mundo pré-colombiano que podia representar completamente o idioma falado no mesmo grau de eficiência que o idioma escrito no velho mundo. As decifrações da escrita maia têm sido um longo e trabalhoso processo. Algumas partes foram decifradas no final do século XIX e início do século XX (em sua maioria, partes relacionadas com números, calendário e astronomia), mas os maiores avanços se fizeram nas décadas de 1960 e 1970 e se aceleraram daí em diante de maneira que atualmente a maioria dos textos maias podem ser lidos quase completamente em seus idiomas originais. Lamentavelmente, os sacerdotes espanhóis, em sua luta pela conversão religiosa, ordenaram a queima de todos os livros maias logo após a conquista. Assim, a maioria das inscrições que sobreviveram são as que foram gravadas em pedra e isto porque a grande maioria estava situada em cidades já abandonadas quando os espanhóis chegaram. Os livros maias normalmente tinham páginas semelhantes a um cartão, feitas de um tecido sobre o qual aplicavam uma película de cal branca sobre a qual eram pintados os caracteres e desenhadas ilustrações. Os cartões ou páginas eram atadas entre si pelas laterais de maneira a formar uma longa fita que era dobrada em zigue-zague para guardar e desdobrada para a leitura. Atualmente restaram apenas três destes livros e algumas outras páginas de um quarto, de todas as grandes bibliotecas então existentes. Freqüentemente são encontrados, nas escavações arqueológicas, torrões retangulares de gesso que parecem ser restos do que fora um livro depois da decomposição do material orgânico.
Relativamente aos poucos escritos maias existentes, Michael Cor, um proeminente arqueólogo da Universidade de Yale disse:
“Nosso conhecimento do pensamento maia antigo representa só uma minúscula fração do panorama completo, pois dos milhares de livros nos quais toda a extensão dos seus rituais e conhecimentos foram registrados, só quatro sobreviveram até os tempos modernos (como se toda a posteridade soubesse de nós, baseados apenas em três livros de orações e “El Progreso del Peregrino).” (Michael D. Cor, The Maya, Londres: Thames y Hudson, 4ª ed., 1987, p. 161.)


Matemática



Grafia dos números maias

Os maias (ou seus predecessores olmecas) desenvolveram independentemente o conceito de zero (de fato, parece que estiveram usando o conceito muitos séculos antes do velho mundo), e usavam um sistema de numeração de base 20. As inscrições nos mostram, em certas ocasiões, que trabalhavam com somas de até centena de milhões. Produziram observações astronômicas estremamente precisas; seus diagramas dos movimentos da Lua e dos planetas se não são iguais, são superiores aos de qualquer outra civilização que tenha trabalhado sem instrumentos óticos. Ao encontro desta civilização com os conquistadores espanhóis, o sistema de calendários dos maias já era estável e preciso, notavelmente superior ao Calendário gregoriano, muitas vezes reformado depois disto.

Decadência da Civilização Maia

Nos séculos VIII e IX d.C. a cultura maia clássica entrou em decadência, abandonando a maioria das grandes cidades e as terras baixas centrais. A guerra, o esgotamento das terras agrícolas e a seca, ou ainda a combinação destes fatores são freqüentemente sugeridos como os motivos da decadência. Existem evidências de uma era final em que a violência se expandia : cidades amplas e abertas foram então fortemente guarnecidas por muradas, às vezes visivelmente construídas às pressas. Teoriza-se também com revoltas sociais em que classes campesinas acabaram se revoltando contra a elite urbana nas terras baixas centrais.
Os estados maias pós-clássicos também continuaram prosperando nos altiplanos do sul. Um dos reinos maias desta área, Quiché, é o responsável pelo mais amplo e famoso trabalho de historiografia e mitologia maias, o “Popol Vuh”.

A Conquista dos Estados Maias

Os maias foram absorvidos durante o processo de expansão do Império Asteca por volta do século XV . Por fim, no ano de 1519, Hernan Cortez  inicia a conquista das terras astecas, anteriormente parte do território maia. Algumas cidades ofereceram uma grande e feroz resistência; a última cidade estado não foi subjugada pelos espanhóis senão em 1697.

Panorama das Descobertas

Cristóvão Colombo, que tomou posse da ilhota (San Salvador) em nome da Coroa de Castela em 12 de outubro de 1492 e vagou pelas ilhas do Haiti, Cuba e Jamaica, julgava tratar-se das costas ocidentais de Cipango (Japão) e Catai (China).
De retorno, a mercadoria mais interessante que trouxe foram habitantes das terras ocidentais, os índios Caraíbas (vendeu 509 deles em Sevilha em 1495 e seu irmão vendeu 300 no ano seguinte em Cádiz) que pela sua nudez e falta de cultura logo denunciaram não pertencerem aos famosos e cultos reinos das índias, havendo até quem dissesse que nem mesmo descendentes de Adão eram.
Assim, logo se alastrou o preceito de que se chegara apenas nas antilhas ou seja, terra inculta e inóspita  razão por que, em 1506, Juan Dias de Solis e Vicente Yanes Pizon, quando chegaram ao México, no extremo norte do Iucatan julgaram tratar-se apenas de mais outra ilha.
Nem no sôfrego desembarque emergencial de um punhado de sobreviventes de uma expedição de Vasco Nuñes de Balboa, em 1511, nas costas do México, nem a chegada de Ponce de León em 1513, mais ao norte, na Flórida, deram notícia dos Maias, que continuaram ignorados mesmo de Fernando Cortez quando se apoderava do Império Asteca no México Central a partir de 1519.

 

Conquista do Iucatã
Foi somente em 4 de março de 1517 que a flotilha comandada por Francisco Hernandes de Córdoba, (que estava à cata de índios para os escravizar nas fazendas de Cuba), fugindo a uma tempestade que já durava dois dias, aportou no norte do Iucatã e logo foi assediada por algumas canoas repletas de maias vestidos em túnicas de algodão e (em razão de suas aparências) os espahóis lhes logo lhes atribuíram mais razão que os habitantes de Cuba.
As sólidas e grandiosas construções (“casas de cal y canto”) visíveis do mar inspiraram o nome que os espahóis deram ao lugar: “Gran Cairo” que evocava a cultura islamita da qual os ibéricos eram tradicionais adversários (recorrentemente chamavam as pirâmides de mesquitas). Tratava-se do primeiro contacto entre as duas civilizações.
Entendendo-se por sinais, os espanóis aceitaram o convite e desembarcaram no dia seguinte e, após duas horas de marcha continente adentro, foram surpreendidos pelo ataque dos maias no qual, já de início sucumbiram 15 espanhóis. E sucumbiriam todos, se não fora o uso dos mosquetes que mais pelo barulho que pelo efeito fatal, pôs os atacantes em fuga.
Nos conta Bernal Diaz de Castilho em sua obra História da Conquista da Nova Espanha, que ficaram horrorizados pelo grande número de ídolos de argila, uns com cabeças monstruosas, mulheres de grande estatura, todos em cenas e gestos diabólicos e que ...Gonzales, o padre da expedição, passou os cinco dedos em diversos deles e confiscou todo o ouro que encontrou
Apresando dois maias, a expedição se fez ao mar novamente e navegou a oeste e sul até chegar na atual Campeche cujas duas grandes torres visíveis ao longe do mar inspiraram o nome Punta de las Mujeres dado ao local.
Aí os espanhóis horrorizaram-se pois o sacerdote local acabara de praticar um sacrifício e as paredes, assim como os cabelos do sacerdote estavam ensopados de sangue (e era preceito rigoroso que não se os podia limpar). O mal estar deve ter ficado explícito e o sacerdote convocando um grande número de guerreiros fez os espanhóis entenderem que não eram benvindos: acenderam uma pequena fogueira deram a entender que se eles não se fossem até o fogo se extinguir, iria haver violência.
Cautelosa a tripulação retirou-se e rumou mais para o sul até Champoton onde desembarcaram pois a provisão de água dos navios tinha se acabado e era necessário renová-la. Tentando encher suas pipas e vasilhas num poço do maias, estes os hostilizaram e atacaram por dias a fio, flexando-os a distância do fio das espadas e dos tiros de mosquetes que já não os assustavam.
Sem outra alternativa, os espanhóis romperam o cerco e fugiram em direção aos navios, abandonando as vasilhas de água. Na fuga, os batéis emborcaram e os espanhóis seguiram meio a nado, meio agarrados aos escombros, e depois foram resgatados.
Da centena de homens do início da expedição, neste embate cinqüenta foram mortos e os que não tiveram suas gargantas cortadas com espadas de madeira encravadas de sílex foram capturados para servirem a futuros sacrifícios, e todos os demais ficaram feridos a exceção de um único soldado que surpreendentemente saiu ileso.
O próprio cronista Bernal Diaz de Castilhos, então com 25 anos havia levado três flexadas, e o chefe da expedição Hernandes de Córdoba veio a falecer das complicações dos ferimentos daqueles combates.
Feitos ao mar sem água potável, com pesadas baixas mas com um punhado de ouro, estes primeiros conquistadores foram o estopim para futuras expedições de outros tantos aventureiros. Assim se iniciava a conquista dos estados maias.

Redescoberta dos Maias

As colônias espanholas americanas estavam muito afastadas do mundo exterior, e as ruínas das grandes cidades antigas eram pouco conhecidas exceto pelos locais. Entretanto, em 1839, o explorador americano John Lloyd escutando notícias de ruínas perdidas nas selvas, visitou Copán, Palenque, e outras localidades acompanhado do arquiteto e desenhista Frederick Catherwood. Seu diário de viagem ilustrado sobre as ruínas incendiaram um forte interesse pela região e sua gente promovendo a assimilação do vínculo com a cultura maia entre os dirigentes locais
A maioria da população rural contemporânea da Guatemala e Belize é maia por descendência e idioma primário; em áreas rurais do México ainda existe uma cultura maia.










segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Bananal: Arqueologia Histórica

Bananal: Arqueologia Histórica Autores: FRANCISCO, B. H. R.1, BELTRÃO, C. B. de A. N.2 1-Centro Brasileiro de Arqueologia (CBA) – secretario1@cbarqueol.org.br; 2-Centro Brasileiro de Arqueologia (CBA) – secretario2@cbarqueol.org.br Palavras-chave: Bananal, história, fazendas
Resumo: O trabalho apresenta os principais sítios urbanos e rurais do município paulista de Bananal, no médio vale do Rio Paraíba do Sul. Resulta de pesquisa bibliográfica e observações de campo efetuadas pelos autores em diferentes fases, sobretudo durante as visitas técnicas empreendidas pelo Centro Brasileiro de Arqueologia. O sitio urbano é tombado pelo patrimônio Histórico (CONDEPHAAT) com destaque para o Solar Manoel Aguiar Vallim, que há alguns anos vem sendo recuperado por um grupo de moradores em mutirão, além da Estação Ferroviária importada da Bélgica pelos barões do café. Na zona rural, destacam-se as fazendas que guardam muito dos aspectos do auge do café na região, são elas fazendas Resgate, Boa Vista e Três Barras. Acresce a trilha do ouro e a estrada dos tropeiros são apenas algumas das evidências de um passado cuja memória deve ser preservada. Abstract: The paper presents the main sites of urban and rural municipality of Bananal, in the middle valley of the Rio Paraiba do Sul. It results from literature and field observations made by the authors in different phases, especially during the technical visits undertaken by the Brazilian Center Archaeology. The urban site is listed as a Historic (CONDEPHAAT) with emphasis on the Solar Manuel Aguiar Vallim, that a few years ago has been recovered by a group of villagers in collective effort, in addition to imported Belgian Railway Station for the coffee barons. In rural areas there are farms that keep many of the aspects of the coffee boom in the region with emphasis on the Resgate, Boa Vista and Três Barras. Added to the trail of the gold and the road of the cowboys are just some of the evidence of a past whose memory should be preserved.
1. A cidade de Bananal O município de Bananal, Estado de São Paulo no médio vale do Rio Paraíba do Sul, dista 316 km da capital do estado e 164 km da cidade do Rio de Janeiro. O acesso é feito pela rodovia Presidente Dutra (BR 116) ou pela antiga rodovia Rio-São Paulo. O arraial de Bom Jesus do Livramento de Bananal data de 1785 passando a freguesia em 1811, vila em 1832 e cidade em três de abril de 1849. Sua população é de cerca de doze mil habitantes, ocupando cerca de 600 km quadrados. O nome Bananal parece advir da palavra indígena banani, ou rio sinuoso, que os portugueses passaram a Bananal. Mas há quem discorde e pense na possibilidade de um verdadeiro plantio de bananas na região ser o motivo do nome.
Na época do descobrimento os habitantes eram índios três que viviam na serra da Bocaina, desciam ao vale e provavelmente iam ao litoral de Angra dos Reis. Desses habitantes quase nada restou a não ser material lítico, machados de pedra que o vulgo pensa ser pedra de raio (fulgurito). Não há estudos sistemáticos a esse respeito. A partir da chegada dos portugueses, e depois de outros imigrantes, como italianos e chineses, começou uma mudança radical, com desmatamentos para cultivo agrícola a principio voltado somente para a subsistência. Com o ciclo do café a região experimentou um período de grande riqueza. Chegou a ser avalista do Brasil relativamente a um empréstimo à Inglaterra, que exigiu a assinatura dos ricos cafeicultores de Bananal. Havia nas fazendas um grande número de escravos, cujos sinais da presença podem ser vistos em muitas dessas propriedades ainda hoje existentes, embora agora muitas tenham se tornado hotéis fazendas depois do declínio do café e, mais recentemente, da queda vertiginosa do ciclo do gado leiteiro. Infelizmente os objetos acham-se dispersos, não há ao menos um Museu que os exponha e nem uma reserva técnica institucional que os abrigue. O sitio urbano foi tombado pelo Patrimônio Histórico de São Paulo (CONDEPHAAT), assim como algumas edificações da área rural. Essas construções são verdadeiros tesouros históricos e arqueológicos merecedores de esforços para a sua preservação.
2. Principais construções Destacamos a Estação Ferroviária, construída na Bélgica e inaugurada em 24 de dezembro de 1999 pela Estrada de Ferro Bananal. Essa estação com 400 m2 e mais de 2000 placas ajustadas com parafusos é um monumento internacional, uma relíquia histórica sem similar no Brasil. Valorizada no exterior, mas pouco valorizada no Brasil, requer cuidados, pois o tempo deixa suas marcas. Chuvas molham o piso original de madeira, passando por frestas no telhado. Depois que foi extinta a Estrada de Ferro em 1964, a estação foi sede de correios, biblioteca e rodoviária. Na verdade, ali deveria abrigar o Museu do Café do Município de Bananal. Estação Ferroviária
Outro prédio que merece atenção é o Solar Manoel Aguiar Vallim, cujo dono na época áurea da cafeicultura era um rico fazendeiro, dono da Fazenda Resgate. Tombado pelo patrimônio, o prédio abrigou o Grupo Escolar Nogueira Cobra, onde um dos autores deste trabalho foi estudante, depois passou a sede da prefeitura e sendo mais tarde abandonado. Corria sérios riscos de tombar literalmente, até que a comunidade local resolveu comprar a briga e partir para um histórico mutirão, conseguindo salvar o prédio. Esse trabalho continua até os dias atuais, sendo necessariamente lento, tanto pelo tipo de trabalho de restauração quanto pelas dificuldades de obtenção de recursos financeiros, advindos estes tão somente de bingos semanais. È muito pouco, sem dúvida. Outros destaques são o antigo Hotel Brasil, a Igreja Matriz Bom Jesus do Livramento, e a Pharmacia Popular – a mais antiga farmácia ainda em funcionamento no Brasil (desde 1830) - e todo o casario de estilo colonial tombado pelo CONDEPHAAT. Seu patrimônio – que preserva instrumentos originais, sais, tinturas e potes de porcelana francesa da época do Império – faz parte do primeiro acervo cultural farmacêutico do Brasil. Pharmacia Popular, fachada Na zona rural, destaque para as fazendas Boa Vista, Saudade, Bela Vista, Coqueiros, Glória, Independência, Três Barras e a mais majestosa, a Fazenda Resgate. Interessante que o nome Resgate se deve ao ato da compra de escravos tribais por mercadores europeus, que assim estariam praticando um resgate. Na realidade constituía uma autêntica prática de sofisma. Fazenda Bela Vista Fazenda Resgate Nessas fazendas os instrumentos de tortura, mobiliário de época entre outros, constituem grande atração para os visitantes. A região tem ainda diversos objetos que poderiam fazer parte de um Museu Histórico tais como arreios, cangalhas, jacás, ferraduras, pilões, etc. Por fim as incríveis moedas que circularam em Bananal, Barra Mansa e no Rio de Janeiro, cunhadas pelos barões do café e que representam de fato preciosidades marcantes de uma época de esplendor da região de Bananal no Estado de São Paulo.
Bibliografia consultada CASTRO, Hebe Maria Mattos; SCHNOOR, Eduardo. "Resgate: uma janela para o oitocentos". Rio de Janeiro, TOPBOOKS, 1995. GRAÇA, Plínio - Estância Turística e Ecológica de Bananal: Terra dos Barões do Café/organizador Plínio Graça. – São Paulo: Noovha América, 2006. (Série conto, canto e encanto com a minha história...).

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Centro Brasileiro de Arqueologia- 50 anos

Miguel de Souza Medeiros JORNALISTA QUINTA-FEIRA, 24 DE NOVEMBRO DE 2011 Centro Brasileiro de Arqueologia (*) Já está mais do que provado que não se pode evoluir sustentavelmente sem compreender os aspectos do passado, cujos elementos vão permitir que se prossiga adiante e sempre. Hoje, é fácil verificar o esforço que a comunidade científica vem fazendo para trazer à tona registros históricos, no espaço físico e documental, para o conhecimento público, de forma a viabilizar os empreendimentos, como construção de rodovias ou edificações, que porventura vierem a ocupar os espaços em que se encontrem os vestígios de outrora. Nesse transcurso de 50 anos do Centro Brasileiro de Arqueologia (CBA), o que essa entidade sempre buscou foi justamente os resultados que se verificam atualmente: trazer à luz da modernidade os conhecimentos necessários para o andamento sustentável dos projetos, em áreas urbanas ou rurais, onde estão depositados os materiais, sem desconsiderar a sua conservação. Esta semana, em comemoração a tão importante data, o CBA promoveu o II Encontro Latino Americano de Arqueologia ( II ELAA) com o objetivo de mostrar o quanto os arqueólogos vêm trabalhando para fazer chegar aos olhos da sociedade a riqueza arqueológica que pode resgatar toda a trajetória de nossos antepassados até os dias de hoje e elucidar todo o processo evolutivo das populações que habitaram nosso território, assim como as heranças deixadas para o período contemporâneo, em que as técnicas empregadas vêm sendo aprimoradas ao longo de dezenas de séculos. Não foi difícil perceber que todo o trabalho do CBA ao longo desses anos vem trazendo os resultados no seio da comunidade científica, especificamente os especialistas em arqueologia, bacharéis, mestrandos e doutorandos, cujos trabalhos apresentados revelaram novos conceitos na forma de conservação dos materiais e manuseio do solo, tanto para permitir melhor aproveitamento nos trabalhos de campo, como também para adequá-lo às necessidades atuais, com ênfase na questão ambiental, e consequentemente, no espectro da sustentabilidade. A História Universal mostra que a sequência de fatos históricos da trajetória humana é uma adequação conforme seu meio e suas relações, o que pode ser comprovado pelas teorias postuladas em tempos remotos, diga-se Darwin, Karl Marx e outros que formularam ideias a partir de pré-conceitos. O CBA, dentro de suas prerrogativas de entidade científica, vai continuar seguindo o mesmo viés de tornar sempre coeso o passado e futuro, para que o homem consiga investigar sua trajetória, sem desconstruir a origem das coisas.
(8) ARTIGO PUBLICADO NO BLOG DE MIGUEL DE SOUZA MEDEIROS.TRANSCRIÇÃO AUTORIZADA PELO AUTOR.

sábado, 3 de dezembro de 2011

PHARMACIA POPULAR DE BANANAL SP

Pharmacia Popular, a farmácia mais antiga em funcionamento no Brasil: um acervo a ser salvo Autores: FRANCISCO, B. H. R.1, BELTRÃO, C. B. de A. N.2 1-Centro Brasileiro de Arqueologia (CBA) – secretario1@cbarqueol.org.br; 2-Centro Brasileiro de Arqueologia (CBA) – secretario2@cbarqueol.org.br Palavras-chave: farmacia, história, acervo Resumo: O trabalho pretende mostrar a importância da preservação do acervo da Pharmacia Popular, a mais antiga farmácia em funcionamento no Brasil. Alguns itens deste acervo são destacados como o formulário Chernovitz e as máquinas registradoras. Para a confecção do trabalho, foi realizada uma pesquisa bibliográfica, através de livros, artigos e vários sites na Internet, além de visitas in loco na Pharmacia Popular. Abstract: The study aims to show the importance of preserving the collection of Pharmacia Popular, which is the oldest pharmacy still acting in Brazil. Some items in this collection are highlighted as the Chernovitz form and registers cash. For this work an intensive bibliographic research was carried out through books, articles and many web sites, as well as site visits to the Pharmacia Popular. 1. A História da Pharmacia Popular A Pharmacia Popular, situada na cidade de Bananal/SP, é a farmácia mais antiga do Brasil. Foi inaugurada em 1830, pelo boticário francês Tourin Domingos Monsier, o primeiro farmacêutico da cidade. Chamava-se Pharmacia Imperial até que Valeriano José da Costa, proprietário da Pharmacia em 1889, aconselhado por republicanos, trocou seu nome para Pharmacia Popular, com o fim da monarquia. Seu patrimônio – que preserva instrumentos originais, sais, tinturas e potes de porcelana francesa da época do Império – faz parte do primeiro acervo cultural farmacêutico, sob o patrocínio da Roche do Brasil, com o apoio do Conselho Federal de Farmácia e da Academia Nacional de Farmácia. A farmácia e respectivo prédio pertenceu a Balkeriano José da Costa e a sucessivos proprietários até chegar, em 1922, às mãos de Ernani Graça, bisavô do atual proprietário.
Plínio Graça, recém-falecido e pai do proprietário atual da farmácia, duas vezes prefeito de Bananal e uma vez vice-prefeito, conservou a fachada, a máquina registradora, a balança, as ânforas e os vidros com pós, raízes e pomadas, potes de porcelana francesa rotulados em latim e dourados a ouro, cristais, alambiques de cobre e outros instrumentos originais. Uma grade separa funcionários que atendem os clientes em balcões feitos em pinho de Riga, ornadas por ânforas de cristal francês, contendo água colorida com anilina. Ao alto, bem posicionado, o busto de Hipócrates. O chão é todo revestido com ladrilhos franceses e os bancos de madeira de lei são os mesmos em que muitos se sentaram para esperar o aviamento das receitas. É totalmente revestida de ladrilhos franceses. Foi reformada uma vez, no fim do século XIX, adquirindo traços neo-clássicos. Faz parte também do acervo da Pharmacia Popular o formulário de Chernoviz, publicado regularmente de 1830 a 1924, uma preciosidade da época dos boticários, que manipulavam ervas medicinais e fabricavam ungüentos e beberagens. Em suas 2.400 páginas, traz a descrição dos medicamentos, a posologia e o modo de preparo. A Pharmacia Popular recebeu um prêmio da Fundação Roberto Marinho, por ser a mais antiga farmácia ainda em funcionamento no Brasil. Em 2001, Plínio Graça, pai do atual proprietário, recebeu o certificado de “Defensor de Bens Culturais”, emitido pela Secretaria de Recuperação de Bens Culturais de São Paulo, pela preciosa contribuição restaurando e preservando o acervo da Pharmacia Popular. 2. O Acervo e sua Importância - Formulário Chernovitz Os manuais de medicina popular foram um tipo de produção literária sofisticada, frequentemente em forma de livros de grossos volumes, que expressava a ciência médica do Império a ser divulgada junto ao público leigo. Foram escritos pela autêntica elite médica - autores que, ou faziam parte da Academia Imperial de Medicina, ou tinham muito boas relações com as autoridades médicas e políticas do Império em geral. E, se essas obras representavam a legítima ciência da época, eram, igualmente, legítimos agentes de medicina popular, tamanha sua aceitação e difusão entre a população leiga que, através delas, pode diagnosticar e tratar de seus males. O Formulário Chernovitz foi escrito pelo médico polonês Pedro Luiz Napoleão Chernovitz - Piotr Czerniewicz (1812-1881), que viveu no Brasil entre 1840-1855, cujo empreendimento editorial o tornou famoso e reconhecido nos meios científico e leigo. Essa "bíblia da saúde" foi, durante muito tempo, o livro mais lido e consultado, resolvendo situações prementes, suavizando dores, desfazendo aflições domésticas, curando, de fato, males de toda sorte. Daí a sucessão de suas edições. O Formulário ou guia médico fazia jus a seu nome: dividido em várias seções, continha a descrição dos medicamentos, de suas propriedades e doses, além das moléstias em que deviam ser empregados. Mencionava também as plantas medicinais indígenas e as águas minerais do Brasil, bem como a arte de formular, ensinando a escolha das melhores fórmulas e indicando receitas úteis na economia doméstica. Todos os medicamentos de que a obra trata dividiam-se em 16 classes, cada uma com uma propriedade médica particular que, 'mais ou menos enérgica', encontrava-se em todas as substâncias. (Chernoviz, 1841). Ao lado dos medicamentos chamados 'officinaes' (xaropes, vinhos, extratos, tinturas, conservas, emplastos e unguentos), cujas fórmulas achavam-se nos códigos farmacêuticos sancionados pelas leis e vendidos já prontos nas boticas – e cujo prestígio variava em cada época – , os doentes também podiam dispor das receitas 'magistraes'. Estas últimas eram preparadas de acordo com as fórmulas de cada médico, segundo as necessidades específicas do paciente. O 'Chernoviz' distinguia, nas fórmulas, a 'base', isto é, o agente principal do medicamento que conteria o princípio ativo; o 'adjuvante', que serviria para aumentar as propriedades ou as virtudes da base; o 'corretivo', cuja finalidade era enfraquecer o sabor ou o cheiro, podendo também reduzir a atividade ou ação corrosiva; o 'excipiente', substância que serviria de veículo às outras três; por fim o 'intermédio', que servia para tornar o medicamento miscível em água ou outro excipiente. Assim, por exemplo, na Mistura Balsâmica de Fuller: Copaíba – 2 onças Gemas de ovo – n.2 Xarope de bálsamo de Tolu – 2 onças Vinho Branco – 6 onças A copaíba seria a base, o xarope, o corretivo, as gemas de ovo, o intermediário e o vinho branco, o excipiente. Em outra seção, eram descritas as formas farmacêuticas dos medicamentos, então classificados em "bálsamos, cataplasmas, cáusticos, clisteres, elixires, emplastos, emulsões, espíritos, extratos, sangrias, sanguessugas, sinapismos, vesicatórios e ventosas". Desse arsenal, o Formulário ou guia médico oferece informações técnicas, verdadeiras relíquias sobre as artes médicas da época. Folheando a seção, ficamos sabendo que os 'cataplasmas', em forma de papas, eram geralmente elaborados com farinha de linhaça, féculas de batata ou miolo de pão. Nos 'vesicatórios ou cáusticos', aplicados como emplastros ou cataplasmas em afecções gangrenosas ou mordedura de animais peçonhentos (visando produzir uma secreção serosa e empolar a pele), além de mostarda e trovisco, empregava-se frequentemente uma papa elaborada a partir da maceração de um pequeno inseto, a 'cantárida'. Noutra classificação, os medicamentos trazem referência à sua ação terapêutica. Destaque-se, neste caso, que até a vitória da concepção ontológica da doença, isto é, aquela que associa o ser 'doença' à ação de uma entidade específica, a medicina acadêmica tendia a conceber a doença como manifestação de múltiplas circunstâncias, de caráter externo (agentes físicos ou químicos) ou interno (constituição física, temperamento, idade, sexo, atividade ocupacional). Nesse caso, os terapêuticos eram de 21 tipos, conforme sua ação específica voltada a restabelecer a harmonia ou equilíbrio fisiológico. A ampla variedade de substâncias laxantes, catárticas ou drásticas – estas últimas as mais intensas – exigia destreza na arte de purgar, tão complexa e tão amplamente empregada quanto a de sangrar (Chernoviz, 1841). Essa classificação encontra-se na parte do formulário propriamente dito. Consiste na descrição, em ordem alfabética, de todas as substâncias então empregadas pela medicina acadêmica. Ao referir-se a cada medicamento, Chernoviz indicava sua sinonímia, a significação em francês, o nome botânico em latim, características físicas, propriedades, moléstias em que deviam ser empregadas, doses e pesos usuais, e riscos de eventuais associações. Uma seção, a princípio inusitada para um guia médico, mas que se coaduna perfeitamente com o ideal iluminista e civilizatório de que se investia a elite médica, intitulava-se "Receitas diversas". Reuniam-se, aqui, várias receitas 'úteis nas artes e economia doméstica', tais como: água de colônia, tintas de escrever, venenos para a destruição de animais daninhos etc. Eram fornecidas também as composições de diversas preparações vendidas como 'segredos': pomadas de tingir cabelos, água para tirar nódoas de tinta de escrever e coisas semelhantes. O Formulário ou guia médico também, ao que parece, não tinha um preço módico. O Almanaque Laemmert, de 1846, anunciava sua segunda edição 'aumentada e inteiramente reformada', de um volume encadernado, por seis mil-réis, ao passo que Os Lusíadas, o clássico de Camões, foi vendido no mesmo ano por quatro mil-réis, em dois volumes e com gravuras. - Máquinas Registradoras Entre os vários objetos do acervo da Pharmacia Popular, encontram-se duas máquinas registradoras, da marca National, provavelmente do final do século XIX ou início do séc. XX. Uma curiosidade com relação à invenção da máquina registradora: em uma viagem de barco, o americano James Ritty ficou fascinado com a máquina que contava os giros da hélice. Na hora imaginou que aquela técnica poderia resolver os problemas de controle de caixa em seu bar. Em 1879, criou uma máquina que media a quantidade de dinheiro que entrava e saía através de teclas representando quantias de dinheiro. Com a invenção, James abriu uma fábrica e encheu sua caixa registradora de dinheiro. Entre os milhares de documentos e objetos que compõem o acervo da Pharmacia Imperial, encontram-se potes de porcelana francesa rotulados em latim e dourados a ouro, balanças, pesos, alambiques e vários outros utensílios farmacêuticos.
3. Conclusão Em funcionamento desde 1830, a Pharmacia Popular é a mais antiga farmácia em funcionamento no Brasil. Por 181 anos, seu precioso acervo foi preservado e passado de geração em geração. Com a morte recente de Plínio Graça, o proprietário de farmacia de 1956 a 2011, este acervo corre o risco de ser totalmente dizimado, caso não seja urgentemente catalogado e tombado.
Fontes de Informação: - Estância Turística e Ecológica de Bananal: Terra dos Barões do Café/organizador Plínio Graça. – São Paulo: Noovha América, 2006. (Série conto, canto e encanto com a minha história...) - A Estrada dos Tropeiros. http://www.fazendadabarra.com/estrada-dos-tropeiros.html - Os Manuais de Medicina Popular de Chernoviz na Sociedade Imperial, por Maria Regina Cotrim Guimarães. http://www.historia.uff.br/cantareira/novacantareira/artigos/edicao5/manuais.pdf - Os Manuais de Medicina Popular do Império e as Doenças dos Escravos: o Exemplo do “Chernoviz”, por Maria Regina Cotrim Guimarães. http://www.scielo.br/pdf/rlpf/v11n4s0/v11n4s0a09.pdf - Abaixo-assinado online sobre o Tombamento do Acervo da Pharmacia Popular: http://www.abaixoassinado.org/assinaturas/abaixoassinado/7266